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Eu sei que todo mundo estranha quando eu falo que vou passar um fim de semana em POA , assim como se eu fosse para uma cidade vizinha. Porto alegre fica longe pra caramba, mas como diz aquela canção do Kid abelha:
“Já que ninguem tem nada com isso
posso fazer o que eu quiser.
já que eu não tenho mesmo ninguem
seja o que Deus quiser…”
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Estava na lanchonete esperando meu pedido, quando escuto a atendente gritando:
- Meu senhor! Meu Senhor!
Eu olho para trás e para os lados procurando pelo “senhor” distraído e não tem ninguém. Aí eu entendi que ela tava falando é comigo.
Calma, gente! Logo eu me acostumo. Ainda Estou em fase de adaptação.
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Desde que me entendo por gente, palhaços sempre exerceram um enorme fascínio sobre mim. Sabe aqueles sonhos de infância sem compromisso com a realidade, tipo ser astronauta, artista de tv, modelo, etc. Pois é, o meu era ser palhaço.
Nem todo mundo tem oportunidade de fazer um sonho de infância tomar forma e virar realidade. Eu tive, eu fiz. Não sei se foi o acaso, meu senso de oportunidade, ou até mesmo numa concepção mais “esotérica,” o universo conspirando a meu favor, de tanto que eu quis. Fato é que foi assim que a coisa aconteceu:
Certo dia, estava eu fazendo minhas famosas “palhaçadas” numa festa junina onde fui o noivo e minha “exuberante performance” despertou a atenção de uma pessoa que eu conhecia mas não tinha a menor intimidade: a Cris Jauedi. Ela puxou conversa, ficou curiosa em saber mais sobre mim. Conversa vai, conversa vem, ela me contou que integrava um grupo de palhaços que faziam um trabalho voluntário muito bacana. Fiquei super curioso e falei que tinha muito interesses em saber como a coisa funcionava. Daí, veio o convite para ir à um dos ensaios da trupe.
Dia marcado lá estava eu, sem a menor pretensão, só queria mesmo conhecer palhaços “de verdade”. Depois de ter sido apresentado ao grupo, a Cris perguntou-me: Então vc quer saber como é ser palhaço? Diante da minha afirmativa, ela pegou uma cadeira, colocou no meio do salão e pediu que eu fosse até lá e fizesse o que desse na cabeça. Fiquei acanhado e só limitei a sentar em algumas posições. Terminado, ela disse: agora é minha vez. Foi até lá, “interagiu” com a cadeira, dançou com ela, fez mil e uma coisas. Fiquei maravilhado.
Acabada a “apresentação”, mandou que eu fosse de novo até à cadeira e fizesse tudo que fiz na primeira tentativa, só que da forma mais exagerada possível, multiplicando todos meus gestos por dez. Fiz da forma que consegui e ela me disse: “pronto, você teve a primeira aula, volte semana que vem para a segunda”.
Veio a segunda aula, a terceira… e eu ficando cada vez mais envolvido. Lembro-me com muito carinho dos treinamentos, da paciência e generosidade do pessoal para comigo. Eu todo desajeitado aprendendo a cantar, dançar, tocar percussão. E como sou cdf em tudo que faço, levei a coisa a serio. Assisti espetáculos, filmes, pesquisei a linguagem clown. Pode parecer fácil, mas é difícil pacas. É tanta coisa. Tem que achar o tempo certo pra graça funcionar, o jogo de cintura pra contornar se não funcionar. Ao contrario do que eu pensava, tinha muito pouco espaço para improvisação. Tudo exaustivamente pensado e treinado.
Aos poucos, “meu palhaço” foi aparecendo, e quando achei que estava pronto, veio a estreia oficial numa apresentação no presídio feminino. Poucas vezes na vida fiquei tão nervoso. Quase desisti. Aquele ambiente pesado, cheio de restrições e advertências, a revista rigorosa, me deixou tenso a ponto de esquecer as falas e as letras das músicas. Eu estava lá me arrumando, tentando “me montar” e um agente penitenciário de cara fechada, parado igual a uma estátua, só me observando. De repente, ele vira pra mim e pergunta: qual é o nome do palhaço?”. Respondi que ainda não tinha escolhido e ele dispara: “ Como você é baixinho e gordo, acho que Batatinha ficaria bom”. Pronto, meu palhaço estava batizado. Um nome um tanto quanto obvio, mas gostei de ser “batizado” por outra pessoa, como acontece com os seres reais mesmo.
A apresentação foi um enorme sucesso, assim como todos as que se seguiram. Momentos mágicos, alegres e emocionantes. Fui muito feliz como o Palhaço batatinha, mas muito mesmo. Porém, as coisas para mim tem início, meio e fim. Minha inquietação e sede de novidades, não permitem que me demore muito em coisa nenhuma, ainda que boas. Assim, às voltas com outras coisas, projetos, problemas e tal, o Batatinha foi perdendo espaço na minha vida.
Há pouco tempo atrás, o pessoal se apresentou num evento pra entrega de calçados à crianças carentes, promovido por uma ONG. Pensei em fazer uma surpresa e ir de Batatinha, para matar a saudade. Mas aí, aconteceu uma coisa teve um significado simbólico para mim. Quando fui desengavetar as coisas, meu nariz de silicone estava ressecado e murcho por falta de uso. Olhando para aquele nariz de palhaço, sem vida, eu entendi que Batatinha não existia mais.
Foi como Batatinha, que eu tomei gosto por trabalhos sociais que envolvam idosos. Visita a asilo era meu trabalho predileto. E olha o destino conspirando de novo… fiquei conhecendo umas pessoas fantásticas que me convidaram para “adotarmos” um asilo que está passando por dificuldades, quase fechando as portas. Mais uma vez um sonho e pessoas certas que aparecem do nada. Vai começar tudo de novo…
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